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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

Artistas Negras(os) : Zezé Motta

Nascida em Campos, cidade do Norte Fluminense, Maria José Motta passou a residir no Rio de Janeiro, aos dois anos de idade, onde estudou em um colégio interno. Levada pelas mãos da mestra do teatro infantil, Maria Clara Machada, foi como bolsista fazer um curso de teatro, numa das mais famosas escolas do Rio de Janeiro, O TABLADO. O interesse pela arte de representar aflorou rapidamente em Zezé, e finalmente, em 1967, já estava profissionalizada. Para nossa sorte, alguns anos depois surgia uma das mais talentosas atrizes brasileiras, ZEZÉ MOTTA.

O SUCESSO FULGURANTE

Como atriz, ZEZÉ MOTTA teve carreira meteórica. Seu debut nos palcos aconteceu em 1967, no espetáculo RODA VIVA, com direção de José Celso Martinez Correa. Daí em diante não parou mais, participando de importantes peças, tais como: FÍGARO FÍGARO, ARENA CONTA ZUMBI, A VIDA ESCRACHADA DE JOANA MARTINE E BABY STOMPANATO, em 1969. Em 1972, participa de ORFEU NEGRO e, em 1974, do famoso GODSPELL, musical de grande sucesso na Broadway. Seu último grande sucesso no Teatro foi no musical ABRE ALAS, em 1999, sob direção da talentosa dupla Charles Moeller e Cláudio Botelho, ao lado de Rosamaria Murtinho.

O CINEMA EM SUA VIDA

Com passagens pelo cinema em A RAINHA DIABA, VAI TRABALHAR VAGABUNDO e a FORÇA DE XÂNGO, logo ZEZÉ faz teste para o filme que virá a ser o maior sucesso de sua carreira, XICA DA SILVA. Com direção de CACÁ DIEGUES, XICA DA SILVA faz sucesso no mundo inteiro, fazendo com que ZEZÉ MOTTA se torne conhecida mundialmente. Por sua magistral interpretação, recebeu todos os prêmios como atriz. A seguir vieram TUDO BEM, ÁGUIA NA CABEÇA, QUILOMBO, JUBIABÁ e ANJOS DA NOITE. Em 1989, ZEZÉ esteve nas telas em 6 filmes: SONHOS DE MENINA MOÇA, NATAL DA PORTELA, PRISIONEIRO DO RIO, EL MESTIÇO, DIAS MELHORES VIRÃO, TIETA e o TESTAMENTO DO SRº NAPOMUCENO. Seu último filme foi ORFEU, de CACÁ DIEGUES, em 1999.

A CULTURA NEGRA E O PRECONCEITO

Ao decidirmos fazer esta série de matérias sobre a cultura negra no Brasil, não pensávamos em enfocar a questão do preconceito racial; tínhamos a idéia de falar da cultura negra como já falamos e ainda falaremos de inúmeros outros povos que contribuíram para fazer do Brasil esse mosaico de raças.

Mesmo sem intenção de falar disto, a realidade se impôs e logo nas primeiras entrevistas percebemos que a cultura africana daqui é intrinsecamente ligada à escravidão e ao preconceito; estes elementos fazem parte da história do povo, assim como o colorido das roupas e da música, o sabor picante dos pratos e tantas outras coisas às quais nos acostumamos tanto que nem paramos para pensar de onde vêm. Portanto, não seria possível falar da cultura sem falar do preconceito.

Durante três séculos o trabalho escravo foi explorado no Brasil, até que a Lei Áurea foi assinada, abolindo a escravidão. Mesmo assim, o fim da escravatura foi uma idéia que demorou mais de um século para amadurecer e foi este um dos mais importantes períodos para a consolidação da cultura negra no Brasil. Nessa fase surgiram os clubes negros, os jornais que pregavam a liberdade, os partidos abolicionistas, os intelectuais, os políticos e os poetas.

Hoje, dono da maior população negra depois da Nigéria, com mais da metade dos habitantes negros, o Brasil conserva os costumes, as crenças, as maneiras e o modo de vida da raça negra, que acabaram originando a chamada cultura afro-brasileira. Na nossa dança, na religião, na música, na comida, no vestuário e na gíria, nota-se uma grande influência da cultura africana que hoje é mais do que nunca preservada, valorizada e praticada.

ENTREVISTA DE ZEZÉ MOTTA PARA A REVISTA RAÇA BRASIL

“Essa entrevista foi feita no período em que foi exibido na TV Globo a novela Porto dos Milagres”.

Você já sentiu algum tipo de discriminação por ser negra, mesmo depois de famosa?

Antes de ser conhecida no meio artístico e reconhecida pelo público, passei muitas vezes por situações de preconceito. Agora não posso reclamar, sou mais respeitada. Mas vejo muitos atores novos desempregados e deprimidos por causa disto. Para quem ainda não se firmou, a situação é bem complicada. Superei o preconceito com muito trabalho, muito empenho e luta constante.

De uns tempo para cá, tem havido uma valorização do negro na mídia. Pela primeira vez começaram a surgir, por exemplo, revistas e produtos de beleza específicos para pessoas negras. Você acha que essa valorização reflete uma mudança real na sociedade?

Acho que essa valorização tem mais a ver com a pressão de negros intelectuais. A Revista Raça, no ano em que foi lançada, vendeu mais do que qualquer outra. Acho que finalmente os empresários se deram conta de que os negros representam uma grande fatia do mercado, que eles consomem, que também compram. Acho que realmente está havendo uma preocupação em mudar isto, vejo na publicidade, na recém terminada novela das 6h, Estrela-guia, havia uma moça negra e seu namorado, também negro, ambos muito bem sucedidos. Acho que a pequena mudança que está acontecendo neste sentido é boa, porque acredito que se mudarmos isto nos meios de comunicação poderemos mudar a mentalidade das pessoas, já que a mídia é muito poderosa.

Quando questiono produtores e diretores sobre isto, eles me respondem que a TV e o cinema reproduzem a realidade do Brasil, que os negros, aqui, tem um poder aquisitivo menor, que são em geral de classes sociais mais baixas, trabalham como faxineiras, empregados domésticos, serviçais, enfim, que nem chegam às universidades. Me surpreende muito isto porque tem muito negro engenheiro, arquiteto, médico. Existe classe média negra, embora não seja a maioria, só que a mídia não mostra isso. Aí fico pensando que o Brasil vende tanta novela no exterior. Será que ninguém lá fora perguntou que Brasil é este, que só tem brancos? Mesmo minha novela (Porto dos Milagres), se passa na Bahia, onde a população é predominantemente negra, e somos só seis negros no elenco.

Temos, no CIDAN (Centro de Informação e Documentação do Artista Negro), cadastrados hoje 380 atores negros, do RJ, SP e Bahia. E cadê esse pessoal? Você não vê por aí. Acho que para virar este jogo precisamos começar a produzir e dirigir nossas próprias peças, e não ficar esperando os brancos abrirem portas. Se fizermos bem feito, isto dá certo. Não estou falando de usarmos um elenco completamente negro, mas com maioria de atores negros. Não se trata de privilegiar estes atores, mas de criar oportunidades que atualmente não existem.

Acho também que estas conquistas podem ajudar outras classes menos favorecidas a andarem mais em direção à defesa de seus direitos.

Na sua opinião, como o Jorge Amado trata a figura negra em seus romances?

Quando fiz Xica da Silva e Quilombo as pessoas (algumas do movimento negro) questionavam e até criticavam o Cacá que os filmes eram sobre negros, mas na visão dos brancos. Aí ele respondia que aquela era a visão dele do Quilombo dos Palmares ou da história da Xica da Silva. Quem tivesse outra visão poderia representá-la de outra forma. Acho que a questão do Jorge Amado é igual. Ele escreve sobre a Bahia que ele vê.

Como você sente a repercussão no público, da imagem de uma mãe de santo (a Mãe Ricardina, da novela Porto dos Milagres? Acha que ainda há algum tipo de preconceito contra o Candomblé?

Gosto muito dela principalmente porque o público gosta muito dela. Nós, atores, precisamos do amor do público. As pessoas me falam que gostam dela, então eu estou fazendo com muito prazer, estou feliz e faço com prazer.

Eu não sabia nada sobre Candomblé, tinha medo até de passar na entrada de um terreiro. Quando saí pelo mundo para divulgar Xica da Silva, as pessoas me perguntavam sobre cultura negra e eu não sabia nada. Então fiz um curso com a antropóloga Lélia Gonzales e dele fazia parte assistir a um ritual de Candomblé. Já havia um suspeita de que eu era filha de Oxum. No dia em que fomos assistir ao ritual, era justamente uma festa para Oxum. Adorei, achei lindo e descobri que era mesmo filha dela. De lá para cá eu, sempre que vou à Bahia, vou ao terreiro de Mãe Estela, o Ilê, Axé Opó Afonjá . Todo final de ano faço um descarrego e de vez em quando jogo búzios. Toda vez que entro em cena, peço licença à Oxum para viver uma filha de Iemanjá e peço a Deus que meu trabalho resulte em algo bom. Durante muito tempo, e ainda acontece, as pessoas acharam que Candomblé e Umbanda eram religião de gente ignorante. Espero sinceramente que a Mãe Ricardina possa ajudar a quebrar esse preconceito.

Conheça o CIDAN – Centro de Informação e Documentação do Artista Negro

FONTE: http://www.culturanegra.com.br/

Um comentário:

  1. prezados,

    Eu estou buscando o endereço ou telefone da
    Zenaide Zenah
    Ai meu mail: stephanedosse@gmail.com

    Obrigado

    ResponderExcluir